domingo, 7 de novembro de 2010

Pensamentos Idiotas, Ideais e Idílicos

"Tenho cá para mim que o problema do mundo não é a fome dos indigentes, mas sim a vontade de comer dos saciados."

domingo, 12 de setembro de 2010

A Mulher de César

Deveríamos pensar sempre duas vezes antes de acusarmos os nossos amigos de serem maus amigos, de nos falharem nas horas de aflição, de não nos livrarem da solidão e de fingirem não perceber das nossas necessidades.

Não, a sério! Não estou a ser irónica! Os amigos não têm culpa nenhuma de não corresponderem às nossas expectativas e falsas esperanças de sacrifícios que nós, com certeza, nunca estivemos dispostos a fazer por eles. E se estivemos, problema nosso, não deles!

Sejamos honestos! Tal como os povos, em última instância, merecem os governos que têm, também cada um de nós merece os amigos que (não) tem.

Eu, por exemplo - que sou o único exemplo fidedigno que consigo dar, por possuir a única cabeça dentro da qual consigo entrar - sem querer ser patética (que, tal mulher de César, eu sei que pareço) sinto-me absolutamente abandonada por todos os meus amigos. Sem excepção, não vou mentir! E esta solidão na qual arrasto no dia-a-dia é de tal modo digna de pena, que escrever aqui o que ninguém lê parece-me um acontecimento socialmente excitante. É como ser-se convidada para uma festa onde somos os únicos a festejar, sem entender muito bem quem enviou o convite.

A falta da presença física e moral de amigos é atordoante, deixa os sentidos dormentes, tal qual o braço muito tempo imobilizado debaixo do corpo de várias toneladas adormecido em cima dele. Sabem aquela sensação que se tem durante 2 ou 3 segundos que parecem eternos quando, ao libertarmos finalmente o braço dormente, este parece que se se vai, a qualquer momento, desmembrar, separar do resto do corpo?... Ele não dói, mas sabemos que se o mexermos o perdemos para sempre e, ao mesmo tempo, sentimos chegar com horror o sangue aos vasos, anunciado a entrada de milhões de agulhas na carne, tal tortura medieval? E de quem é a culpa? Do braço, que se limita a levar-nos a mão onde queremos, ou nossa, que dormimos em cima dele e lhe exigimos operacionalidade constante?

Pois é, a tomada de consciência da inexistência de amigos corresponde a esses dois ou três segundos entre o condicionamento físico e a tortura medieval. Sentimos como que se os amigos fossem membros sobre os quais dormimos e que agora se despegam e nos espetam agulhas a cada movimento que fazemos sem eles.

E eu pergunto, tal como o braço dormente, não será a solidão fruto do nosso corpo adormecido em cima dela?

Subjugamos as amizades ao peso que temos da consciência das coisas para connosco. No entanto, alguma vez os nossos amigos nos prometeram amparar nas horas de desespero?

Não sei quanto a vocês, mas os meus nunca prometeram tal coisa!

A questão é que eu parti do princípio que eles estariam sempre presentes e, no entanto, nunca estive sempre presente nas aflições deles. E se em algumas estive, que horas houve, nada mais fiz do que a minha obrigação como amiga. Neste preciso momento, por exemplo, quantos amigos meus estarão a precisar de uma palavra de conforto, de um riso ao telefone, de um cafezinho na esplanada de um qualquer café? - Eu juraria que nenhum, mas isto é porque a minha dor me parece ser a única digna desse nome. Acho que todos estão bem e que todos me abandonaram.

Ora, se não assumimos o nosso fracasso na escolha de amigos que não nos convinham, tenhamos pelo menos a coragem de assumir a responsabilidade pelos nossos actos: os meus amigos não são responsáveis pela minha solidão. EU é que parti do princípio que eles estariam sempre cá, EU é que os imaginei super-heróis, EU é que pintei a banda desenhada onde eles me iam salvar e EU é que tenho a sensação que faria por eles aquilo que eles não fazem por mim. Mas faria?

Não nos compete esperar das pessoas mais do que aquilo que elas nos dão e não receber menos do que aquilo que elas parecem destinadas a oferecer-nos. Porque às vezes, uma descontraída conversa na esplanada pode ser tudo o que precisamos.

Os meus amigos não estão cá para serem a mulher de César nem para me salvar. Que se salvem a si e me libertem dessa tarefa, é o que lhes desejo!

Os meus amigos estão cá para parecerem a mulher de César, para eu os imaginar amigos. E todos os exageros que daí advenham serão de minha inteira responsabilidade!

domingo, 29 de agosto de 2010

Filosofia Barata I

A diferença crucial entre os regimes comunistas e capitalistas é que no comunismo limpamos a boca às coisas do ânus, ou seja, colocamos o rolo de papel higiénico na mesa quando se nos acabam os guardanapos, e no capitalismos limpamos o ânus às coisas da boca, que é como quem diz, recorremos aos guardanapos quando nos apercebemos que esquecemos de comprar papel higiénico 'logo agora'!

Quem viveu nos dois regimes sabe do que falo.

domingo, 15 de agosto de 2010

À sombra da árvore

O homem de expressão impaciente, dir-se-ia que amargurada, para dar mais dramatismo à cena, está estranhamente calmo, sentado numa cadeira velha, à sombra de uma árvore numa qualquer encruzilhada de caminhos desertos e empoeirados da terra batida. Na mão segura o revólver que aponta à sua própria cabeça. Para o tiro fatal pouco falta. Talvez, pensa quem está de fora, alguma palavra acertada dita na hora certa consiga evitar esta saída pouco higiénica mas, decididamente, teatral e quase que garantida. (Que casos já houve em que o garantido ficou no orifício traseiro da galinha).

Mas quem vai saber qual é a palavra certa na hora acertada? A hora será com certeza qualquer uma antes do tiro, mas como chegar ao cérebro do suicida antes da bala?

Conhecessemos nós as palavras certas e não haveria no mundo tantos amantes infelizes. As palavras são, sem dúvida, a arma mais mortífera para quem não tem nas mãos um revólver, que lirismos à parte, é pela bala que se mata e por ela que se morre.

E o nosso homem seguramente não segura palavras. Com os dedos tensamente fechados sobre o punho do colt, parece esperar a distração da coragem.

Alguém que viu a cena, um familiar, por certo - que naqueles vilarejos dos Estados Unidos é difícil alguém ver alguma coisa, tal é a secura do deserto e da gente que por ali escasseia - chama a polícia, com a esperança que com ela venha o especialista das palavras.

Mas a polícia é peremptória: para o revolver negociar este tem de estar na sua mão e não na mão do outro!

E toca então de cercar o nosso "desperado" por todos os lados e de o pôr na mira de dezenas de outros colts, tão mortíferos como o dele, mas com autorização legal para matar.

- Pouse a arma imediatamente, senão disparamos! - grita o xerife, orgulhoso do cerco tão perfeito que os seus homens foram capazes de formar.

O suicida hesita. Vemos nos seus olhos incrédulos o absurdo da situação: então ele ameaça matar-se e eles ameaçam matá-lo se ele se matar?

Olha em redor. Talvez a prolongar aqueles breves segundos da resposta esperada, talvez à procura de ouvir a palavra que necessita. Mas tudo o que ouve é de novo a voz do xerife.

- Pouse a arma imediatamente, senão disparamos!

E ele, o nosso suicida, sorri num esboçar de lábios só perceptível à tele-objetiva, provavelmente uma 200 mm, que não terá a melhor lente a desenhar rostos, mas que à distância a que a câmara se encontra, atrás da linha policial, só ela nos poderá desvendar aquele levantar do canto da boca.

Ele estava ali, com o dedo no gatilho, há mais de uma hora. Apercebera-se que perdera entretanto a coragem, que lhe passara o desespero cego da solução final. Mas agora havia que convencer o dedo a largar o gatilho. Havia que criar a verdadeira coragem de sair dali com as mãos nos bolsos. Mas o dedo espera a palavra certa. Talvez aquela que lhe dissesse que amanhã seria outro dia, que só aquilo não teria solução, que... sabe lá ele. E sabemos lá nós, que achamos sempre que sabemos tudo! Ele já nem mesmo se lembra o que foi que o fez ir para ali... Recorda-se só que quando se sentou à sombra da árvore tudo o que queria era tirar o peso do sol de cima dos ombros. E de repente deu por si com a arma encostada à cabeça e o olhar de desespero da mulher a rodeá-lo que nem abutre.

Como é que a arma lhe tinha ido para às mãos? Qual teria sido a linha de pensamento a despoletar o dedo e a fazê-lo crer que a bala seria mais leve que a sombra?

Ele não sabe... tenta lembrar-se, mas tudo o que vê é a mulher aos gritos, aflita. Não lhe entende as palavras, que o hábito de quem vive junto por muito tempo tem destas coisas. Mas sente-lhe a aflição sincera. Sim... ainda gosta muito dela, mas já não se lembra porquê... Ela chora... Ah, se ela chorasse menos talvez não o distraísse tanto... que as mulheres têm destas coisas: distraem-nos!

A polícia mantém-se atrás dos carros, de arma em punho sobre o suicida.

A mulher já não grita. Tenta balbuciar ao xerife que o marido não mata nem uma mosca - que com o sol castigador que está, só mesmo as moscas conseguem voar, pois, até prova em contrário, as almas não voam... Ah, e se o nosso homem está rodeado de almas... de almas que lhe gritam torturantes «Fá-lo!». Como é possível que ninguém mais as ouça?... - Onde está o vosso especialista das palavras certas?? - parece perguntar a mulher de carne e expressão secas, que àquele lugarejo esquecido por Deus, do Sonho Americano só o desemprego e a miséria chegaram. Até o xerife, janota e já de braços alimentados e tez mais rosada, veio da cidade, a largas milhas de distância. Ele, cavaleiro sem cavalo, ordena-lhe que se retire - Para trás da linha de segurança. Melhor para casa, e pode levar as moscas! - Esta última parte não a diz, claro, as sente-se-lhe na voz incomodada e politicamente correta. - A gente resolve isto!

"Isto" é o pais dos seus filhos...

E ele, o pai, o marido, teria talvez acreditado nela, teria provavelmente adiado a morte para o acaso da vida futura, mas o brilho dos carros não lhe permite ver a sombra do rosto da mulher na ombreira da porta.

O sorriso mantém-se... ele perdera entretanto a coragem, que a coragem é como o tubarão, que, se o sangue não lhe chega aos sentidos poupa a vítima, que acabará eventuamente por morrer do pânico, mas não da bala... Alegorias metafóricas à parte, que o mar está muito longe desta secura de road movie, o seu tubarão havia-lhe rodeado a dor por alguns instantes, mas não tendo avistado sangue foi embora para as águas quentes da costa, antes mesmo de a polícia chegar.

E agora? O revólver não está registado, mais problemas, talvez passe a noite na cadeia... Ah... Que chatice! E que pouca vontade ele tem de passar a noite na cadeia! A sombra ali está tão agradável... a árvore, tão frondosa... Como é possível nunca ter reparado nela a não ser para descarregar águas?

Não, não vai passar a noite na cadeia! E sorri ainda mais, pela coragem da decisão finalmente tomada!

Afasta ligeiramente a mão da cabeça, vira zombeteiro o olhar para o xerife, e antes que possa focar-lhe a cara sob o escuro da aba do chapéu, uma saraivada de balas crava-se na árvore atrás dele, algumas levando já o seu sangue.

A mulher grita. A voz dela é o único som a quebrar a tórrida paisagem que para um português seria quase tão grande e tórrida como a alentejana...

O marido jaz no chão, no banho vermelho e sombreado pelas folhas opacas. No seu rosto, um enigmático sorriso de agrdecimento pela colaboração dos homens da lei!

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Moral da história em forma de pergunta para xerifes de filmes americanos: Mas que ideia estúpida é essa de apontar uma arma a quem se está a querer matar?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Pedido em modos de ordem

Tudo, menos este sentimento de inutilidade e comiseração, por favor...

Que venha a raiva, o grito, o espanto. Mas não este vazio, não esta pena de mim. Tudo, menos a pena!

É uma ordem!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Aos Namorados das Minhas Amigas

Por defeito, gosto dos namorados, amigos, amantes, companheiros, maridos, casos, o que lhes queiram chamar, das minhas amigas! Gosto deles na medida em que fazem as minhas amigas felizes, amadas e desejadas.

Respeito-os, aprecio-os, converso com eles, sou capaz de os suportar em paz o tempo que a minha amizade exigir e não me importo nada de repartir com eles as atenções das minhas amigas. O ciúme nunca fez parte da minha mão-cheia de defeitos.

No entanto, desengane-se o que deles acreditar que, em caso de discórdia, tomarei a sua defesa.

As coisas são o que são e, caso esteja algum deles a ler estas linhas, que fique ciente que se algum dia a minha amiga chegar ao pé de mim a chorar e a dizer que lhe espetou uma faca de cozinha no pescoço porque você a chamou de vaca, eu serei a primeira a voltar com ela ao local do crime, a re-espetar-lhe a faca uma segunda e terceira vez, para me assegurar da sua morte, a mergulhar o seu corpo em ácido sulfúrico e a atirar aos peixes o que restar da carcaça!

Em seguida, escreverei tal guião cinematrográfico com a história do seu desaparecimento que deixará a polícia a acreditar que encontrar a Maddi será ainda mais fácil e provável que encontrá-lo a si.

Quanto ao que restar dos seus ossos, será comido, triturado e defecado por aquelas tainhas mutantes que insistem em poluir o rio Tejo de peixes, e os seus despojos acabarão por ser arrastados para o meio escuro, frio e profundo do Atlântico. Para todo o sempre.

E como isso não bastará, levarei nessa mesma noite a minha amiga a jantar fora, explicar-lhe-ei que vaca é sagrada na Índia, beberei com ela o melhor vinho da casa e, em êxtase, dançaremos até ao raiar do sol, num pacto ameno de exorcismo do seu - por essa altura já insignificante - nome e regressaermos a casa bêbedas e com a sensação de missão cumprida.

Isto não é nada pessoal, por isso não levem a peito. Longe de mim ser androfóbica! Não nutro pelo género masculino nenhum ódio de estimação e, nalguns raros casos, conseguirei mesmo acreditar que vocês não sejam particularmente piores que as minhas amigas.

A questão, meus caros, é que as minhas amigas são elas!
Só isso.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Tonterias...

Sinto falta, muita falta do Marques da Silva!

E porque não dizer saudades? Sim, saudades dele.

(isto é um desabafo idiota, não prestem atenção e passem por cima deste post).